me considerei uma pessoa razoável e pacata. Só andei à porrada uma única vez, nos meus já longínquos anos de liceu. Há 1200 anos, portanto. Uma certa fulana estava a pedir que eu argumentasse, solidificasse o meu ponto de vista e a chamasse à razão com um sobrelotado dossier A4 de argolas largas, e foi isso que fiz. Ter-lhe dado um valente abanão e espetado um calduço na tola soube-me pela vida, e ainda hoje, 1200 anos depois, recordo com melancolia e saudade aquele momento tão especial. Ainda lhe chamei "sua vaca mentirosa!", porque pancada e silêncio não combinam, além de que ela era uma vaca e uma mentirosa. A razão fulcral do atrito tomou com o tempo contornos difusos, mas aquele momento em que a fulana me olhou nos olhos com um ar completamente aterrorizado e indefeso ainda hoje me consola nos momentos menos felizes.
Com a idade estes nossos instintos animalescos são abafados pelo socialmente aceitável/recomendável, e a menos que pertençamos a uma claque de futebol, andar por aí à pancada é coisa muito mal vista.
Resta-nos usar a diplomacia (muita, toda) e tentar fazer o menor número de inimigos possível durante este nosso percurso, pois se há coisa que a vida me ensinou, é que podemos ter um desses inimigos a fazer-nos uma entrevista de emprego quando menos esperamos. Poissss.









