Os meus pais são infinitamente infelizes juntos.
Ouço as lamurias de ambos, um de cada vez. É cansativo para mim isto. Só lamurias, só lamurias... rara foi uma palavra agradável saída da boca de um em relação ao outro. Vivem num campo de batalha em que apenas não há violência física. A outra está lá toda. Antes dessem uns pontapés um no outro de vez em quando. Sempre libertavam alguma da raiva. Cansa-me as suas vidas de faz de conta.
Nunca é tarde para nos apaixonarmos, nunca é tarde para nos juntarmos, nunca é tarde para nos casarmos, mas principalmente, nunca é tarde para nos divorciarmos. Já lhes disse isso mesmo. "Divorciem-se!", disse. "Mas porque é que não se divorciam?!?", disse. Mas eles continuam. Habituaram-se à distancia de sentimentos e às guerrilhas domésticas. Habituaram-se à infelicidade estúpida. Habituaram-se a moer-me a cabeça como escape. Ou talvez apenas saibam que ainda vão ser mais infelizes separados que juntos. É assim para quem já não sabe ou nunca soube viver de outra forma.
Contam-me as mesmas histórias de ângulos completamente diferentes... tentam que eu tome partidos. Não o faço. Nenhum tem a total razão em nada. Cansam-me tanto os meus pais... Ontem ouvi um durante uma hora, hoje ouvi outro durante uma hora. "Sabes lá o que é viver com aquela mulher!", diz o meu pai. "Sabes lá o que é viver com aquele homem!" diz a minha mãe. "E sabes o que é que ele me disse?!? Sabes? Aaaah, isso não te contou ele! Só conta o que lhe convém! Aaaaah!". "É impossível viver com aquela mulher! Impossível! Dá com um homem e doido! Sabes o que é que ela me disse? Sabes?"...
Tenho pena dos dois. Estão ambos velhos e desgastados. Amargurados.
Cansam-me tanto os meus pais.
imagem de beetleman
Aproveitado para Fábrica de Letras